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Pagar por quatro nunca mais, por Mara Gabrilli

Folha de S. Paulo, 1º Caderno, Tendências / Debates.

Artigo de Mara Gabrilli a respeito de uma discriminação sofrida por Leide, onde uma casa de espetáculos queria cobrar 4 ingressos só dela por ela ir ao evento em uma maca hospitalar.

TENDÊNCIAS/DEBATES

Pagar por quatro nunca mais
MARA GABRILLI

Em ocasião assim, temos a oportunidade de detectar como os mecanismos excludentes são comuns em nossa sociedade

LEIDE MOREIRA, minha amiga, advogada e poeta, tem esclerose lateral amiotrófica. Só possui o movimento dos olhos, e com eles se comunica. Nessa ação não está incluído o piscar, que ela não executa, de modo que sua linguagem consiste apenas na movimentação de seu globo ocular. Seus assistentes precisam piscar-lhe os olhos e pingar colírio a todo momento e, se essa tarefa falhar, Leide corre o risco de cegar, perdendo, então, a única forma de comunicação que possui.

No lançamento de seu segundo livro, ‘Poesias para me sentir viva’, no auditório desta Folha de S.Paulo, em novembro de 2008, combinamos de fazer um programa juntas. Um cineminha, quem sabe. Leide me surpreendeu com o convite para assistir a um show de Ney Matogrosso.

Esse foi seu primeiro programa após o lançamento do livro, e lá fomos nós juntas ao espetáculo. Para isso, ela contou com ambulância e todo um aparato que utiliza para continuar viva. Ela é ligada permanentemente a um equipamento que a auxilia na respiração, máquina que a acompanha sempre.

Foi transportada em uma maca móvel, utilizada também durante o show. Com a musculatura paralisada e atrofiada, a poeta sente desconforto quando fica sentada por muito tempo, por isso, sempre que sai, também utiliza a maca

Na ocasião, o Citibank Hall lhe cobrou quatro ingressos, alegando que ela ocuparia o espaço de uma mesa.

Ainda argumentaram que estariam dando um desconto de 50%, já que a mesa era de oito lugares e eles cobrariam ‘somente’ quatro ingressos.

Apesar de não considerar justo e por conta de sua empolgação pelo show, por sair de casa e pela nova experiência, Leide aceitou arcar com os quatro ingressos para si, sem contar com os de sua equipe.

Já para o show da Maria Bethânia, realizado recentemente no teatro Abril, Leide pagou um ingresso, como todos os outros espectadores, utilizando a mesma maca móvel, entre os outros recursos.

Leide decidiu que veria, após essa ocasião, o novo show de Ney Matogrosso, novamente no Citibank Hall, mas pagando o preço justo, ou seja, apenas seu ingresso, e não os quatro que pagara anteriormente somente para si. Novamente, as entradas de seus funcionários foram devidamente pagas.

Após uma semana de conversas com Ministério Público, associações que defendem os direitos das pessoas com deficiência e um contato meu com a diretoria do local, no qual inclusive fui muito bem atendida, a casa de espetáculos concordou em receber Leide pagando um ingresso, assim como outros consumidores.

Afinal, fomos novamente juntas ao espetáculo, realizado neste domingo, 14 de março, e tudo ocorreu dentro da normalidade. Além disso, o cantor veio pessoalmente cumprimentar-nos e autografou um CD para Leide.

Ela, porém, não foi atendida no pedido de ressarcimento, em forma de desconto, dos três ingressos cobrados indevidamente na ocasião anterior, para o primeiro show. Desconfia ainda que poderá enfrentar situação similar em uma eventual próxima oportunidade, já que foi informada pela casa de espetáculos que, ‘dessa vez, foi aberta uma exceção’.

Nesse caso, o fato de Leide ter conquistado o direito de uma pessoa pagar por um ingresso foi interpretado como uma concessão.

Possivelmente, dentro de alguns meses, esse abuso será passível de multa, já que nesta semana irei protocolar na Câmara dos Vereadores de São Paulo um projeto de lei municipal que proíbe casas de shows de cobrar mais de uma entrada para pessoas em situações semelhantes à de Leide.

Numa ocasião como essa, temos a oportunidade de detectar como os mecanismos excludentes são comuns em nossa sociedade. Mesmo que, em relação à inclusão das pessoas com deficiência, a legislação brasileira esteja bem avançada, na prática, a inclusão social exige o enfrentamento de grandes barreiras e desafios, configurando-se numa luta diária para conseguir apenas o elementar.

Porém, sabemos que essa é uma causa de todos nós, e estamos comprometidos com o desenvolvimento de uma sociedade cidadã e justa.

Por isso, Leide, eu e tantas outras pessoas para as quais essas barreiras são ocorrências corriqueiras acreditamos que podemos comemorar mais uma importante vitória, sabendo que ainda temos muitos desafios nessa jornada de lutas.

MARA GABRILLI, 42, tetraplégica, psicóloga e publicitária, é vereadora da cidade de São Paulo pelo PSDB. Fundadora da ONG Projeto Próximo Passo, hoje Instituto Mara Gabrilli, foi secretária municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de São Paulo (2005 a 2007).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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