Apresentação

Enquanto escrevo olho para meus dedos. Freneticamente eles codificam meus pensamentos em letras, números, símbolos e desenhos. Adaptam-se ao teclado como se ele fosse uma extensão deles e tentam alcançar a velocidade de meu pensamento.

E erram aqui, erram ali, sem jamais parar de saltar de tecla em tecla. É fascinante vê-los trabalhando.

E então dou uma pausa. Lembro-me de consultar um livro, levanto-me e minhas pernas levam-me até a estante. Meus braços levam minhas mãos até o livro, que eu pego, folheio, encontro o que quero e volto para o teclado.

Trabalho entre quatro telas de computador. Minha cabeça gira sem parar junto com meu pescoço, buscando as informações que preciso em cada tela. Opa. Caiu a caneta.

Abaixo-me para apanhá-la, usando a coluna, os braços e as mãos.

Meus dedos, minhas mãos, meus braços, minhas pernas, meu pescoço, minha coluna são partes de um todo que produz. São as ferramentas que utilizo em meu ofício de registrar e organizar meus pensamentos sobre o mundo.

Eu, como você, seu vizinho, seus parentes, seus amigos, sou uma máquina perfeita, que julga, toma decisões e produz. Tá bem, talvez não tão perfeita.

Mas não há como não admirar a forma como meus dedos envolvem um copo. A complexidade das articulações que permitem que eu gire meu braço em 180 graus. A sofisticação de minha coluna vertebral, que suporta um peso imenso. Os meus pés. Meus joelhos… Sou uma máquina sim. Perfeita.

Mas não sou a máquina. Não sou meu corpo. Não sou meu rosto. Não sou as roupas que uso nem a forma como ando. Sou outra coisa que independe de meus dedos, de minhas mãos, de meus braços e pernas.

Se um dia eu perder os dedos, as mãos, os braços, as pernas ou meus movimentos, continuarei sendo eu, pois não posso ser definido por um conjunto de células, de músculos ou ossos.

Sou o que não se vê, o que não se sente, o que não se pode pegar.

Sou simplesmente eu.

E para entender o que significa esse “eu” preciso me abstrair deste mundo real. Preciso ir a outras esferas, entender o mundo de outra forma, o que talvez seja impossível. Estou ocupado demais trabalhando, ganhando a vida, para me preocupar com essas questões metafísicas.

É mais fácil achar que sou meu corpo, que sou meus dedos, minhas mãos. Não é assim que todo mundo faz?

Nem todo mundo…

Você tem em mãos um precioso tesouro. Um livro escrito sem mãos. Sem dedos. Sem braços. Um livro escrito com um olhar. Diretamente da alma.

Um livro escrito por alguém que, privada do corpo, encontrou um meio de manifestar seu eu. E o fez de uma forma irresistível: pela poesia.

Leide Moreira ultrapassou as fronteiras dos limites físicos do corpo e nos brinda com a poesia de seu olhar. Com aquilo que a faz sentir-se viva.

Em suas mãos você tem o resultado de um esforço inimaginável, algo que – com mãos, dedos, braços e pernas perfeitos – está muito além de nossa compreensão.

Para folheá-lo você precisará de seus dedos. De suas mãos e braços. Para viajar pelas 60 poesias, precisará movimentar o pescoço e a cabeça. Ao observar as ilustrações de Gabriel- neto de Leide Moreira – talvez você esboce um sorriso usando seus músculos faciais. Mas não deve ler como se estivesse lendo poesias, seguindo as regras e convenções a que estamos acostumados.

As poesias de Leide Moreira dispensam convenções. Dispensam até mesmo pontuação. Elas vêm de um lugar onde os sentimentos não precisam ser traduzidos por meio de códigos e sinais.

Em suas mãos você não tem um livro.

Tem Leide Moreira que, aos sessenta anos de idade, continua mais viva que nunca.

Trate este livro como uma lição.

Luciano Pires, escritor

Livro

 

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60 Anos
Álbum de fotografia
Alegria
Amar vale a pena
A minha janela
Amor
Amor é flor
Ave Maria
Beija-flor
Boneca de pano
Chapeuzinho Vermelho
Cidade das fadas
Cotidiano
Dilema
E-mail
Fantasia
Filosofia
Fofoca
Inverno
João e Maria
Lua
Meu caminho
Meu coração
Meu Jardim
Meu tempo
Meus dias
Minha casa
Minha lua
Minha sala
Minha semana

Minha vida
Natal 2007
Noite de lua cheia
Oração
Outono e inverno
O viajante
Pecado
Presentes
Primavera
Primeiro amor
Procurando
Proposta
Quem é você
Quem sou
Robô
Sabrina
Salada de frutas
São João
Saudade
Se
Ser ou não ser
Sessenta anos
Sonho
Sonho II
Te amo te amo
Treva
Trilhos da vida
Tua ausência
Verão
Viajante